Andrey Koens_

Andrey Koens | Brasil

Nascido em 1992, São José dos Campos, Brasil. Vive e trabalha em São Paulo, Brasil.

Andrey Koens é artista, mestrando em Artes Visuais no Instituto de Artes da UNESP. Suas investigações relacionam estéticas do digital às poéticas da imagem pictórica, explorando pós-fotografia, IA e robótica. É parte do GAIA (Grupo de Arte e Inteligência Artificial FAUUSP/ Inova USP), onde pesquisa a virtualização e a arquitetura digital de instituições de arte. Desde 2010, desenvolve softwares, com projetos para o Centro de Inteligência Artificial (C4AI-Inova USP), FAU-USP e Galeria Luisa Strina.

 

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Sem título (O mundo desnatural) | 2021 

 

impressão gliclée em papel algodão matte, imagem digital por captura de tela em grande formatoúnico100 x 80 cm (39.4 x 31.5 in) - peça única.

A construção do mundo
 

Nelson Goodman em seu livro Ways of Worldmaking defende que a criação de novos mundos se dá no estabelecimento de novas perspectivas sobre um mesmo mundo e seus símbolos, onde todas as possibilidades residem. Assim, nesses trabalhos, a construção da paisagem de outros mundos vazios e genéricos serve de dispositivo alegórico para o tensionamento estético e a construção de narrativas e experimentos mentais.
 

Gaia desnaturada


É comum no Brasil ouvir o termo “mãe desnaturada”, geralmente como uma cobrança à mulher sobre a manutenção de uma postura tradicional e ditada por valores patriarcais. Fora desse contexto, a ideia de ‘desnatural’ soa estranha: não há espaço para o não natural, atípico, e assim não nos referimos a ele. Um outro uso mais específico da palavra, desnaturalizar-se, pode estar relacionado também a renúncia ou perda dos direitos de cidadão de um país. A expropriação do desnatural (no costume e na possibilidade individual) parecem ser um tema recorrente na tecnologia e seus modelos funcionais naturalizados: o aceite mandatório e compulsivo dos ToS (termos de serviço), cujas penalidades são a expulsão e o cancelamento. Não se referem aqui exclusivamente os termos das mídias sociais, mas também todo o tipo de “emprego” mediado pelas tecnologias atuais. O extrativismo predatório da existência humana está intimamente ligado àquele da natureza: quem é o indivíduo no bigdata, ou qual a importância de um único Jacarandá na floresta? As árvores somos nós, no melhor sentido. A partir disso, cria-se a relação: a gaia desnaturada vai sendo, pouco a pouco, expurgada dos pequenos pontos que arquitetam sua existência. Os pequenos vetores {x: float, y: float, z: float}, que se assemelham aos nossos corpos digitais, vão se exaurindo, sendo deletados, juntados e esculpidos, até que sobre apenas a sugestão do que foi uma paisagem.

Imagem computacional como pintura


Considerar estes trabalhos pinturas é como planejar de antemão um grande retorno conceitual: a imagem como conhecemos se desenvolve nas práticas pictóricas, e ao relembrar os conceitos mais primordiais da materialidade e plasticidade delas podemos evocar a pintura. Trata-se aqui da confluência entre mídias, mais que da negação de alguma específica. Para os trabalhos desta série, é interessante explorar sua materialidade. A produção das imagens tem relação com o extrativismo: os algoritmos que geram as núvens de pontos feitas à imagem das formações naturais são de grande consumo energético e físico, utilizando grandes quantidades de energia elétrica e memória alocada na parte física do computador, além do próprio trabalho de processamento. Como quem enche um balde de água, é necessário um “balde” para as informações, que ficam salvas como sequências de transistores ligados e desligados. O processo de criação aqui é próximo do criticado processo de mineração de criptomoedas; gera calor, barulho e informações, que podem ser capturadas e modeladas. A dimensão das imagens, bastante alta em algumas, também é importante pois, por serem capturadas da tela ao invés de renderizadas, tem uma correspondência direta com o tamanho físico das telas utilizadas no atelie. Outra correspondência conceitual à pintura é o pigmento: o trabalho é digital, mas sua finalização (para expor, comercializar etc) é em impressão sobre papel. Os pigmentos da impressão gliclée fine art são minerais, próximos dos utilizados na produção de tintas acrílicas e óleo; extraídos da natureza. O papel é de algodão, outro suporte comum na imagem pictórica. Assim, ao evocar as relações entre imagem digital e pictórica, desejo reafirmar as implicações teóricas e filosóficas do fato: o digital é o natural,
refinado.